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quinta-feira, 19 de julho de 2012

Invictus – um filme que fala um pouco de Nelson Mandela


  

* Por Janaina Pereira

Clint Eastwood é um dos meus diretores preferidos. Não lembro de nenhum filme dele que eu não tenha gostado. Fazendo comparações, prefiro Sobre meninos e lobos a Menina de Ouro, por exemplo. Mas gosto de todas as produções que ele dirigiu. Assisti seu mais recente filme, Invictus, cheia de expectativas. E ele manteve seu alto grau de popularidade comigo. Mais uma vez, Clint faz um filme sincero, sensível, com aquele jeitinho doce que ele tem para dirigir grandes histórias - e fazer delas grandes filmes.
Para dar um charme a mais ao filme, ele retoma a parceria com um dos maiores atores americanos de todos os tempos, Morgan Freeman - juntos eles fizeram Os Imperdoáveis e o já citado Menina de Ouro. Só que em Invictus, Freeman é simplesmente Nelson Mandela. Preciso dizer mais alguma coisa?
Pois é, mas eu vou falar. O filme retrata o início do governo de Mandela na África do Sul. Você se lembra como era? Eu lembro bem: um país dividido entre negros e brancos, onde havia ainda muita segregação racial e uma fome de vingança pelos que estavam oprimidos durante o apartheid. Para diminuir essa diferença, Mandela viu uma grande oportunidade no rugby, esporte praticado no país.
Com a proximidade da Copa do Mundo de rugby, que seria disputada por lá, o presidente procurou se aproximar do jovem capitão da seleção africana, o loiríssimo François (Matt Damon, praticamente o sósia do personagem de desenho animado He-man). O objetivo de Mandela era encorajar os jogadores e fazer com que o time tivesse chances reais de ganhar o torneio - e aí Clint dá um olhar crítico bastante sutil para a dobradinha política e esporte, afinal, sabemos bem o quanto políticos se aproveitam do esporte para encobrir podres e situações extremistas, como a ditadura, por exemplo.
Para dar força ao time, Mandela usa o texto Invictuous, de William Ernest Henley, que ele mesmo lia no período em que ficou preso. O poema tem frase forte no final: ”Não importa o quão estreito seja o portão e quão repleta de castigos seja a sentença, eu sou o dono do meu destino, eu sou o capitão da minha alma”. Impossível não absorver a mensagem embutida nestas palavras.
O ponto alto do longa é a parte final, com o jogo decisivo da seleção africana na Copa. Eastwood mostra todo seu potencial de diretor fazendo cenas primorosas, usando a câmera lenta e o som como aliados. O que se vê na tela é uma verdadeira batalha, onde homens dão suas vidas - e suas almas - para, mais do que vencer um jogo, reconstruir um país. Lindo, emocionante e uma aula de direção.
Claro que nenhuma cena seria tão grandiosa se os dois atores principais não tivessem nascido para os papéis que representam em Invictus. Morgan Freeman como Nelson Mandela - ele foi escolhido pessoalmente pelo presidente para interpretá-lo - é impecável, e por vezes confundimos o ator com o próprio Mandela. Já o capitão François Pienaar é interpretado por um Matt Damon forte na aparência, como o personagem exige, e carregado de emoção numa atuação inesquecível.
Vale resaltar que Mandela não é santo - embora a mídia tentasse, por muitos anos, vender essa imagem do presidente africano. E Clint, com sua habitual elegância, dá as dicas do comportamento contraditório de um personagem mundialmente popular: as (poucas) cenas familiares e um Mandela xavequeiro mostram que ele não é flor que se cheire. Nada que comprometa a imagem carismática do presidente, mas dá uma arranhadinha básica. Ou, como diz um de seus seguranças no filme, "ele (Mandela) também é gente e tem problemas de gente."
Os atores, o diretor e o filme estão concorrendo a vários prêmios na temporada pré-Oscar, mas infelizmente não levaram muita coisa até agora. Freeman ganhou alguns merecidos prêmios como ator, mas na reta final parece que Invictus está implodindo nas premiações. Não se deixe levar por isso: o filme merece ser visto e apreciado como espetáculo cinematográfico que é.
E Clint, ah, Clint é um diretor de milhares de recursos, um cavalheiro atrás das câmeras, um cineasta que brinca com as emoções do espectador como poucas vezes vi na vida. Vida longa para Clint Eastwood e seus filmes extraordinários.

* Janaina Pereira para Cinemmarte

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Amores Possíveis: Uma história, três destinos

Marcelo Forlani*

Carlos (Murilo Benício) era apaixonado por Júlia (Carolina Ferraz). Os dois combinam de ir ao cinema. Ela não vai e deixa o pobre rapaz esperando... por quinze anos!!!

A partir deste ponto, a diretora Sandra Werneck (Pequeno Dicionário Amoroso) mostra três possíveis destinos para o que poderia ter acontecido. 1) Carlos se torna um respeitado advogado e é casado com Maria (Beth Goulart); 2) Ele descobre que é gay e se separa de Júlia, trocando a mulher e filho por um colega de futebol; 3) Sem achar o grande amor de sua vida, ele continua vivendo com sua mãe (a impagável Irene Ravache) e vira um mulherengo de marca maior.


A ideia não tem nada de inovadora. Recentemente, Gwyneth Paltrow viveu situação (ou deveríamos dizer situações?) semelhante em De Caso Com o Acaso (Sliding Doors). Se formos pensar pelo ponto de vista de que há vários desfechos para um mesmo início, podemos dizer até que o alemão Corra Lola, Corra é, digamos, "primo mais velho" do filme brasileiro.

Alternativas passadas nas HQs

O futuro alternativo é um recurso utilizado nos quadrinhos há muito tempo. A DC Comics tinha o seu selo "Túnel do tempo". Em contrapartida, a Marvel usava o Vigia (aquele do cabeção) nas histórias do tipo "O que teria acontecido se..." (em inglês, apenas What if...). Ah, não nos esqueçamos das hilárias "What the...", que contam histórias maravilhosas avacalhando todo o Universo Marvel...

Mas assim como os quadrinhos, o cinema não vive só de idéias novas, mas sim de como elas são executadas. Por isso, Amores Possíveis  (romance de 2001) é um projeto que vale a pena ser visto. Filmando as histórias uma-a-uma, a diretora não teve o problema de ver seus atores se atrapalhando na hora de saber qual personagem deveria interpretar. Carolina Ferraz, linda como sempre, mostra que é mais do que um rosto bonito quando encena a esposa amargurada que foi trocada por outro homem. E Murilo Benício dá um show. Principalmente nos papéis em que interpreta o "gay" e o "molecão", este, com um jeito "carioca ixpértu" que não tem como não comparar com o velho de guerra Evandro Mesquita.


  
Crítica retirada do site Omelete

terça-feira, 22 de maio de 2012

“Como Esquecer” - um filme sem preconceito

Em breve na nossa tela , "Como Esquecer" na Primeira Maratona do Cine Clube Foto, dia 29 de maio!!! Aguarde, e conheça mais do filme nessas linhas! 



O filme apresenta as diferentes maneiras que o ser humano consegue suportar (ou não) a rejeição/a perda de alguém do seu "par perfeito", pois um término amoroso nunca é fácil - para ambas as partes.



Júlia (Ana Paula Arósio) é a personagem principal na trama, não poderia ser diferente, pois logo após de uma separação (homo-afetiva) a mesma não consegue ficar mais sozinha sem pensar na ex-companheira - a ponto de não pensar em fazer besteiras com a própria vida social e pessoal.

A direção de Malu De Martino está de parabéns, pois ela conseguiu abordar o assunto da relação homo-afetiva com uma visão simplesmente adequada à história - sem precisar usar o homossexualismo como "algo de outro mundo".

Além do que os profissionais envolvidos em “Como Esquecer”, provaram saber trabalhar em equipe, já que o filme credita seis escritores e o texto se revela inteligente e bem desenvolvido.
É curioso acompanhar a luta e recusa simultâneas de Julia em querer virar a página, já que ela teme em apagar as melhores lembranças de sua vida, ao mesmo tempo em que está ciente de que esquecer o episódio é o primeiro passo para voltar a viver. Como reagir a esse dilema?

A complexidade da personagem encontrou na atriz Ana Paula Arósio sua intérprete ideal. Arósio encara um papel difícil e propõe um mergulho vertical na decadência emocional que a protagonista se encontra, surgindo muito convincente, ainda que os esforços da produção para deixá-la feia e acabada tenham sido frustrados, porque essa é uma tarefa quase impossível. O ator Murilo Rosa (Hugo), interpreta o estereótipo do amigo gay hedonista, mas também tem seus momentos, ao passo que Natália Lage (lisa) é só uma adição na casa para completar o trio de pessoas que choramingam pelos cantos a dor do amor efêmero.

É perceptível no filme a constante presença de filosofias de vida e um certo ar de puro intelectualismo (principalmente, por parte de Júlia), pois as personagens estão em uma busca constante/incessante pela felicidade...

Uma das partes mais emocionantes é quando  Júlia, Hugo e Lisa vão morar juntos num lugar bem afastado do caus urbano,  pois em consequência, acaba anexando todos os problemas de cada um em um único ambiente, imagine a complexidade desta relação a três.
Tem uma frase bem marcante que Júlia diz:
- O que seria o contrário do amor? Ódio? O que poderia ser?
Eis, uma pergunta bem intrigante e sagaz, pois é isso e muito mais que te espera no filme - Como Esquecer.


segunda-feira, 30 de abril de 2012

"Juventude", um filme brasileiríssimo


Simples e despojado, longa de Domingos de Oliveira dribla problemas técnicos com diálogos deliciosos e um compêndio fascinante de ricas experiências de vida

Por: Rodrigo Carreiro


De um ponto de vista exclusivamente formalista, fazer um filme cuja ação dramática consiste em uma noite de bebedeira e conversas na vida de três senhores entrando na faixa etária dos 70 anos parece um convite para um dos programas cinematográficos mais chatos que se pode imaginar. No território da sétima arte, contudo, as certezas vivem sendo continuamente derrubadas e pisoteadas sem cerimônia. “Juventude” (Brasil, 2008), do veterano diretor Domingos de Oliveira, comprova a máxima mais uma vez. Este é um filme sobre memórias e afetos. Um filme encharcado de experiência humana verdadeira, que celebra a vida. Em resumo, um filme cheio de tesão.

Não é preciso ser grande conhecedor de cinema para perceber a influência de Woody Allen no tipo de filme predileto do diretor brasileiro: cenas que consistem de longos diálogos, drama e humor mesclados indistintamente, em que personagens masculinos gabam-se de conquistas impressionantes e desfilam um rosário de inseguranças sexuais. Oliveira é o primeiro a concordar com a semelhança. Assume-se como admirador incondicional do norte-americano e afirma que a inspiração para “Juventude” veio dele mesmo. Nem por isso o longa-metragem, todo filmado em digital e por isso feito com orçamento mínimo, perde um milímetro de sua força. Pela simplicidade, pela despretensão e pela força dramática, afirma-se como um dos lançamentos mais interessantes de 2008 no Brasil.

A sinopse é mínima. Toda a ação dramática acontece no espaço entre a tarde de um sábado e o nascer do sol de domingo. Nesse intervalo, três grandes amigos de infância que já passaram dos 70 anos de idade se reúnem, na casa de um deles, para se embriagar com álcool e com as memórias de uma vida inteira. David (Paulo José), o anfitrião, é um homem rico e recebe os colegas, conhecidos desde que interpretaram juntos uma peça na adolescência, na mansão onde vive, em Petrópolis (RJ). Antônio (Domingos de Oliveira), um cineasta, mora com uma garota de 20 anos, mas ainda lamenta a perda do grande amor da vida dele para um norte-americano. E Ulisses (Aderbal Freire Filho), o garanhão da turma, vive um momento singular, marcado pela relação conturbada com uma filha viciada em drogas.

Em “Juventude”, existe experiência na frente e atrás da tela. A direção de fotografia, por exemplo, foi entregue ao veteraníssimo Dib Lufti, talvez o mais lendário fotógrafo de cinema do Brasil. Os atores, por sua vez, atuam como se estivessem na cozinha de casa (vai ver estavam mesmo), com a maior naturalidade possível, cada um respeitando o espaço do outro e inventando tabelinhas de diálogos deliciosas, responsáveis por momentos vibrantes de afeto: amizade, amor, ciúmes, dor, sofrimento. A relação de risos e lágrimas que eles vivem carrega o DNA das grandes amizades, e é algo reconhecível por todos nós. As horas que o trio divide na mansão funcionam como uma cápsula do tempo, em que cada um ganha a oportunidade de fazer um balanço de sua vida – todos os erros, todos os acertos – enquanto todos percebem que o passado ainda insiste em se insinuar no presente, às vezes de maneiras insuspeitas.

“Juventude” é cinema imperfeito, do ponto de vista técnico. A mise-en-scéne despojada pode dar a impressão de desleixo com a captação das imagens. A luz é problemática, já que a textura opaca/brilhante das cores captadas pela câmera digital deixa evidente a profundidade de foco quase inexistente (algo agravado quando o filme é visto em projeção digital). Mas a verdade é que nada disso importa. A qualidade dos diálogos, a força dos personagen s e torrente de emoções que flui da tela, em fluxo contínuo, constroem uma experiência fílmica rara. O cinema precisa de mais filmes assim.

Fonte: CineReporter

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O ano em que meus pais saíram de férias



Marcelo Hessei

O ano em que meus pais saíram de férias (2006) não teria esse título se não fosse um humor de mercado. Convenceram o diretor Cao Hamburger (Castelo Rá-Tim-Bum - O Filme) de que Vida de Goleiro, o nome original, afastaria o público feminino. A mudança faz sentido, mas o anterior era melhor. Mesmo porque a metáfora futebolística aqui é preciosa.

Com doze anos de idade, Mauro (Michel Joelsas) já sabe que a profissão de arqueiro é a mais solitária dentro de campo. A responsabilidade é tremenda. Transcorre 1970, ano de Copa, e os pais de Mauro saem de férias. Esse é o eufemismo para dizer que a ditadura forçou o casal a se esconder. O garoto é deixado em São Paulo com o avô. O que os pais não esperavam é que o velho falecesse de repente. Mauro está prestes a experimentar um pouco da responsabilidade - e da solidão - de ser um goleiro nesse jogo da tenebrosa e incerta época da repressão.

O bairro é o Bom Retiro, centro de comércio têxtil paulistano de grande concentração judaica. Mauro acaba no apartamento de Shlomo (Germano Haiut) e o primeiro contato dos dois não é dos melhores - mesmo porque o garoto é um gói, um não-judeu. Ao choque cultural se soma o de gerações. E Mauro não está interessado em interagir. Passa os dias ao lado do telefone, aguardando um telefonema. Seu pai prometeu voltar a tempo do começo da Copa, e Mauro guarda aí a sua esperança.

A melancolia que se segue é comum aos filmes nacionais que tratam do período do regime, mas nenhum adere, como Hamburger, ao ponto-de-vista de uma criança. A referência mais evidente é o cinema argentino: Kamchatka (2002), em particular, também enxerga dilemas de adulto por olhos inocentes. Justiça seja feita, no material de imprensa do filme a inspiração portenha é admitida. Spielberg e Leone também são citados no release. Do primeiro Hamburger herda o bom trato com elenco-mirim, contato esse depurado pelos anos de direção do seriado Rá-Tim-Bum. Do segundo, tira menção a Era uma vez na América, as ótimas sequências da espiadela pelo buraco da parede.

O ano... não é feito só de colagens. Muita coisa saiu da própria vida dos realizadores. Hamburger viu o pai judeu e a mãe católica serem presos pela ditadura. E também atuou como goleiro no time da infância. Essas memórias afetivas respondem pelos melhores momentos do filme. São aqueles instantes de sensibilidade, de percepção do mundo, que só uma criança consegue ter - seja o jeito diferente com que olha a moça bonita do bairro, a curiosidade com que veste as luvas de couro do avô ou a alegria de completar o álbum de figurinhas.

A essa porção mais leve, de descoberta, se sobrepõe a mais grave, de contexto político. Há genialidade espontânea nas cenas que relembram o espectador do clima civil de insegurança, sem que isso seja verbalizado. Uma é quando Mauro sai à rua pela primeira vez com seus novos amigos, e é surpreendido pelo avanço do cachorro. Outra é quando ele comemora sozinho um gol - a câmera enfoca-o do lado de fora do apartamento, e com as janelas fechadas vemos Mauro gritar, mas não ouvimos nada.

Triste pra caramba. E faz mulher, homem, fã ou não de futebol, se comover.

Fonte: Omele

terça-feira, 17 de abril de 2012

Um “Xingu” comportado demais

Embora belo e didático, filme não explora cosmologias e formas de viver-pensar indígenas — nem a sideração de “tornar-se outro”, presente em “Avatar”
Por Ivana Bentes*

Fui ver “Xingu”, na estréia no Roxy, e é muito fácil embarcar no filme: didático, belo, comportado. E fiquei pensando o que Herzog faria com essa história, com um potencial tão disruptivo e perturbador! Eu queria ver outro filme, e definitivamente “Xingu” não é sobre os “indios”, mas sobre a relação dos brancos com um mundo que precisam neutralizar e que é, de certa forma, insuportável.

O filme aplaca certa culpa e junto com ela neutraliza nosso devir-indio, com essa pragmática e bela defesa do “parque temático” do Xingu, que evitou a dizimação ainda mais atroz de indios brasileiros. Um gesto corajoso e político dos irmãos Villas Boas, a batalha pela demarcação de uma incrível reserva indígena que retardou e impediu parte do massacre. Mas criar uma “reserva” de humanidade já é matar. Mal “menor” diz o filme.

A história dos irmãos Villas Boas e dos sertanistas é tão incrível que, para mim (e espero que para outros), o filme é um disparador de mundos e imaginários. A cosmologia indígena, sua outra forma de viver/pensar são uma das mais radicais experiências de outras humanidades.

Tirar os indios das “reservas”, dos “museus”, da “antropologia”. O que pode ser um devir-índio? Poucos filmes fizeram isso. Aproveitei e revi “Cara de Indio” (primeira parte abaixo; sequência, aqui: 2 3 4), os comentários do antropólogo e pensador Eduardo Viveiros de Castro sobre algumas fotos clássicas dessa história de amor fatal entre nós e eles.

No final dos anos 80, viajei, acompanhando o trabalho de minha irmã, com uma expedição da Funai para duas tribos. Saímos de Benjamin Constant, na fronteira com a Colômbia, em direção ao Alto Solimões e ao encontro dos Marubos e Matis. Chegar numa tribo indígena, ainda com pouco contato na época, mesmo com todas as mediações de antropólogos, funcionários da Funai, médicos, guias, é algo impressionante e marcante, como se toda a história dos contatos e do infinito fascínio mútuo tornasse a acontecer pela primeira vez.

Os índios não são o “museu” da humanidade, são mundos potenciais e virtuais. Por isso, fiquei tão siderada com um filme como “Avatar”. Hollywood cravou direto, mesmo com todos os clichês, numa ficção-cientifica antropológica: ciber-indios, aos invés de desejar dizimar e matar, desejar intensamente tornar-se outro.

“Xingu”, às vésperas da Rio+20, também aponta para a outra “fantasia” desenvolvimentista de “integrar” os índios como sub-trabalhadores de um Brasil industrial. De Vargas a Belo Monte, passando pela “integração nacional” da ditadura. Este projeto fracassou, exterminou etnias inteiras, e ainda está ai!

O projeto indigenista dos irmãos Villas Boas, de “isolar”, de evitar o “mau encontro” com os brancos, de “retardar” a extinção de mundos inteiros é hoje uma referência internacional. Mas qual é, hoje, a potência dessa fabulação? Os filmes meramente “informativos” ou belos nos ajudarão a construir outra narrativa? Politica é sideração!

* Ivana Bentes é professora, pesquisadora e diretora da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ. Este texto é rascunho para um artigo sobre o filme. Título e subtítulo são da redação de Outras Palavras.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O Circo Místico de Selton Mello

Por Jader Moraes*

Finalmente assisti o aclamado filme O Palhaço, escrito, dirigido e protagonizado por Selton Mello. E, de cara, faço um alerta: não espere nada demais do longa. Ele é simples. Bem simples. E por isso é encantador!
O roteiro bem construído, o elenco afinado, a direção inspirada, a fotografia belíssima, tudo é favorável ao longa, que entrou na categoria hors concours do Festival do Rio. O filme conta a história de um palhaço em crise de identidade. ”Eu faço o povo rir, mas quem é que vai me fazer rir?”, questiona Benjamim a certa altura, numa cena de incrível sensibilidade.
Rodado em estilo road movie, o filme diverte desde os primeiros minutos e envolve o espectador por trazer à cena pequenos dramas de um trupe circense, igual à tantas outras que ainda hoje resistem Brasil afora. A escassez de público, as dificuldades financeiras, as trapaças, o fim que se aproxima (e inevitavelmente uma hora vai chegar), está tudo ali.
Do elenco, não há um grande destaque: Paulo José e Selton Mello emocionam e fazem rir na pele de pai e filho, o elenco de apoio está bem entrosado e as participações especiais são, todas, enriquecedoras - com destaque para Moacyr Franco, que protagoniza o que talvez seja um dos momentos mais divertidos da fita.
E se Selton Mello é apenas correto ao achar o tom certo de seu palhaço, na direção do longa ele se mostra um gigante. E brilha. Este é seu segundo filme como diretor - o primeiro, Feliz Natal, também foi bastante elogiado, mas ainda não vi - e Selton consegue imprimir uma marca bem particular à sua obra.
Quer seja pelas tomadas que captam as reações do respeitável público, pelo ritmo do filme que não cai em um segundo sequer, por alguns ângulos bem criativos ao longo dos 88 minutos ou pela feliz harmonia do elenco. Ou ainda pela belíssima cena final, gravada em um plano-sequência bem interessante, a todo momento sente-se a mão firme e segura do diretor. O Selton-diretor sobra em cena.

E fora o que já ressaltei, destaca-se também a trilha sonora, que remete ao circo, como não poderia deixar de ser, mas tem boas nuances, transitando bem entre as cenas mais alegres e aqueles mais reflexivas, além de fazer uma justa homenagem à nossa música popular. Aliás, o longa é uma obra de exaltação da cultura popular e faz isso com maestria!
Enfim, um filme imperdível, por sua beleza, singeleza e por trazer a boa comédia de volta às telas do cinema nacional (depois de algumas bombas recentes).

* Jader é jornalista

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O Retorno de Irma Vap


Por Larissa Bastos*

O filme de 2006 é adaptado de "O Mistério de Irma Vap" (The Mistery of Irma Vap), o texto mais popular da dramaturgia de Charles Ludlam que é o pilar deste  longa de Carla Camurati. Tanto a peça (que também é mencionada no filme) quanto o filme trazem Marco Nanini e Ney Latorraca como protagonistas, que se revezam em papéis femininos e masculinos, com atuações excelentes e hilárias. No teatro, a peça passou 11 anos em cartaz, registrada no Guiness Book como a peça de maior tempo em cartaz, mantendo o mesmo elenco.
Marcos Caruso vive Otávio Gomes, que no filme é um dos produtores da montagem original e, junto com Luiz Alberto, o Lula (Leandro Hassum), filho de seu parceiro, pretendem remontar a peça para o teatro. A maior dificuldade é conseguir falar com Tony Albuquerque (interpretado por Marco Nanini), um dos atores da primeira montagem, e que viveu Irma Vap nos palcos. Ele é mantido enclausurado e dominado por sua irmã Cleide, professora rabugenta de piano,  também interpretada por Nanini. 
Para solucionar a questão, Lula e Otávio convidam Darci Lopes (Ney Latorraca), outro ator da peça, agora, um artista esquecido e decadente, para ser o diretor da volta de Irma Vap aos teatros, que será interpretada por atores jovens: Leonardo Aguiar (Thiago Fragoso) e Henrique D’Ávilla (Fernando Caruso). Já que Tony detém os direitos autorais da peça, é uma questão de necessidade que eles cheguem até ele, porém a irmã Cleide, em vez de permitir a aproximação, falsifica a assinatura do irmão e vende os direitos de reprodução do texto.
Dentro deste enredo, há atuações espetaculares e engraçadíssimas, com destaque para Nanini e Latorraca, com personagens que remetem a  "Para Wong Foo, Obrigada por Tudo" de um modo mais ranzinza, porém não menos divertido.


*Larissa é blogueira e crítica de cinema no BLOG TENHO MAIS IRONIA QUE AMIGOS

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Garota da Capa Vermelha


Red Riding Hood - 2011 (EUA, Canadá)


Por Xean *

   Idade Média. Valerie (Amanda Seyfried) é uma jovem que vive em um vilarejo aterrorizado por um lobisomem. Ela é apaixonada por Peter (Shiloh Fernandes), mas seus pais querem que se case com Henry (Max Irons), um homem rico. Diante da situação, Valerie e Peter planejam fugir. Só que os planos do casal vão por água abaixo quando a irmã mais velha de Valerie é assassinada pelo lobisomem que ronda a região.
   Essa é a trama central do filme que é uma versão mais pesada nos cinemas do clássico Chapeuzinho Vermelho, popularizado pelos Irmãos Grimm.
   Com direção de Catherine Hardwicke - a diretora de Crepúsculo, de 2008 - e produção de Leonardo DiCaprio, esse suspense com um pouco de romance  consegue criar um clima de mistério e contar com uma boa direção de arte, mas peca um pouco nos diálogos e  algumas reviravoltas que acontecem muito rapidamente, além da censura branda que estraga algumas cenas. As lutas são muito rápidas e o sangue quase nem aparece quando o lobo/lobisomen ataca as pessoas.
   Parece que a diretora se inspirou em Crepúsculo para fazer esse filme, ao invés de se inspirar no filme Floresta Negra de 1997, a versão pesada da Branca de Neve, um filme muito bom, com um suspense bem pesado mesmo.

   A Garota da Capa Vermelha é muito bem feito, uma boa história, apesar dos pequenos defeitos que não estragam muito a diversão de vê-lo. Vale a pena ver assistir!


*Xean é publicitário

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O sombrio universo de “O Corvo”

Por David Vieira*

  Adaptado do HQ “The Crow”, de James O’ Barr, o filme “O Corvo”, de 1994, foi o primeiro grande filme dirigido por Alex Poyas, que posteriormente foi o responsável por clássicos como “Eu, Robô”, protagonizado por Will Smith, e “Cidade das Sombras’, no qual também compôs a história e o roteiro.
“O Corvo” é um filme um tanto quanto sombrio, mas envolvente. Conta a história do casal Eric Draven (Brandon Lee) e Shelly Webster (Sofia Shinas) que foram brutalmente assassinados, uma noite antes do casamento, pela gangue de T-Bird. Um ano depois Eric volta para vingar sua morte e de sua noiva, guiado por um corvo.
   A trilha sonora do filme é simplesmente insinuante. A cada passo, pensamento e lembrança do personagem a história fica mais sedutora sendo somada ao instrumental. O que também não deixa a desejar é o cenário gótico misturado com o som de “The Cure” e trechos de shows de rock. Mas não é apenas a trilha que tem o filme tem, de especial. Os diálogos e frases soltas em uma forma sucinta de mostrar que nada na vida é trivial complementam o clássico.
   O filme também é repleto de fatos curiosos e sombrios. Um deles é a morte do ator Brandon Lee (filho de Bruce Lee). A cena da morte do personagem Eric Draven seria realizada com munição de verdade, mas sem pólvora, pela curta distância do take. Para se proteger, o ator entrava na cena com uma sacola de supermercado (aquelas americanas, de papel) para reduzir o impacto e esconder a bolsa com sangue falso. Ao limpar a arma para retirar as cápsulas, o assistente do armeiro acabou por derrubar um dos projéteis no cano. Esse projétil foi disparado, provocando perfurações nos órgãos internos e partindo a coluna de Brandon, causando hemorragia interna. Nem a cirurgia de seis horas para retirada da bala conseguiu salva-lo.
   Conta-se que o arquivo da gravação com a morte do ator foi totalmente destruído e nunca revelado. Porém, há uma corrente de fanáticos pelo filme que garante que a cena foi aproveitada nas gravações, mas em um momento diferente. Houve também incêndios reais no set de filmagem. Contudo, é um clássico do cinema que deve ser apreciado para se entender a verdadeira mensagem do filme. Ótimo também como um conforto para as pessoas que perderam entes queridos.
   A ave negra continua guiando atormentados do mundo dos mortos em três sequências do filme O Corvo: A Cidade dos Anjos (1996); A Salvação (2000) e Vingança Maldita (2005).

*Produtor da banda de rock cearense “My Fair Lady”

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Velozes e Furiosos – Operação Rio

 Fabiana Longo*

   O quinto filme da série “Fast & Furious” não faz jus aos anteriores, nem de longe. Criado em 2001 para conquistar os apaixonados por carros e velocidade, a fúria foi bem mais intensa que a velocidade na “Operação Rio”. As corridas não são mais o foco, a trupe de Dominic Toretto (Vin Diesel) entra na onda do “Onze Homens e Um Segredo” e vem ao Rio para cometer um assalto mirabolante (inclusive o título em inglês – Rio Heist – já revela isso).

   O filme começa exatamente onde o anterior parou: com o ex-agente do FBI Brian (Paul Walker) e a irmã de Toretto Mia (Jordana Brewster) concretizando a emboscada ao ônibus da penitenciária que transportava Don, para livrá-lo da cadeia. Esta primeira cena já é impossível de ser feita no plano da realidade, apenas com efeitos especiais – aliás, os efeitos especiais são a melhor razão para ver o filme. Com a emboscada bem sucedida, os irmãos Toretto e Brian vão parar no topo da lista de procurados pelo FBI. Decidem então se refugiar no Brasil, onde um dos personagens do primeiro filme, Vince (Matt Schulze), já está instalado e com mulher e filho na reconhecível favela da Rocinha.
Poucas cenas foram realmente gravadas no Rio, a maioria dos cenários foi encaixado por computação gráfica. Mas isso fica bem perceptível quando eles estão realizando o assalto em um deserto tipicamente americano, que desemboca na Rocinha, e em uma cena em que estão no alto de um prédio, onde à esquerda podemos observar a praia de Botafogo e à direita o teatro Municipal. A ponte Rio-Niterói também não tem nem a metade do tamanho da obra original. Outra coisa também infiel ao original é o personagem de Dominic, que nos enredos anteriores era um rebelde apaixonado por velocidade e um ladrão ocasionalmente. Já no começo do filme ele mostra um instinto assassino que ainda não havia aparecido em momentos tão despropositais e uma desconfiança que, até então, não mostrava prévias razões.
   Para caçar o trio na cidade maravilhosa, o FBI envia o agente casca- grossa Hobbs (Dwayne ‘The Rock’ Johnson), que já chega chamando toda a polícia carioca de corrupta e escolhendo sua parceira brasileira nessa operação pelo sorriso, a policial-tradutora-única-honesta-do-Rio Elena Neves (Elsa Pataky). No Rio, a equipe de Toretto já chega arrumando confusão com peixe grande: o empresário Hernan Reis (Joaquim de Almeida), que é responsável por um grande esquema de lavagem de dinheiro e leva a polícia em seu bolso.     A caçada então começa: os capangas de Reis e a equipe do FBI contra os velozes, mas acabam por trocar tiros uns com os outros, provocando enorme baixa em ambos os times e com Dom e companhia saindo ilesos.
As armas apareceram mais que os carros nessa continuação. Todos armados pelas favelas do Rio e também no local onde os “pegas” eram realizados (outro cenário carioca que eu não consegui reconhecer, me pareceu ser no Leblon, mas não foi muito fiel, se alguém souber onde era pode comentar). Pegas que, aliás, não apareceram. Quando Dom e Brian saem em busca de um carro veloz para realizar o assalto, nós espectadores pensamos: “oba! corridas”, mas é apenas um ledo engano. Logo o enredo volta ao QG da equipe. E uma grande equipe! Outra razão para assistir o filme. Para o trabalho, além dos quatro que já estão no Rio, Dom e Brian convocam ao Brasil os latinos Tego (Tego Calderon) e Rico (Don Omar), o comediante Tej (Ludacris), o “fantasma” Han (Sung Kang), a belíssima Gisele Harabo (Gal Gadot) e o nervosinho Roman Pearce (Tyrese Gibson). Aliás, a presença de Han, que morre no Desafio em Tóquio, terceiro filme da sequência, sugere que o filme se passa antes deste. Em um momento Han pergunta: “Ué, mas a gente não ia para Tóquio?” e recebe a resposta: “Calma, isso é depois”. 


   O trabalho que a equipe faz no Rio não vou revelar aqui, afinal, seriam “spoilers”, mas rende muitas cenas de ação, uma bela porradaria entre Vin Disel e The Rock, grandes efeitos especiais e um enredo divertido (apesar de sem sentido). A direção ficou por conta do americano-taiwanês Justin Lin, que dirigiu os três últimos filmes da sequencia. Ao estilo dos filmes de heróis da Marvel, o filme tem uma cena pós créditos, que já indica uma continuação. Então não saiam do cinema antes disso. 

*Jornalista